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POSTADO EM 27 abr 2020 · Sem categoria

Tecnologia: caminho das pedras contra o coronavírus

Em tempos de engajamento de toda população brasileira no combate à pandemia instaurada pelo coronavírus (covid-19), a implementação do home office no Brasil é um desafio hercúleo para que os negócios sobrevivam em meio à crise, e a tecnologia é a nossa maior aliada.

A China, cujo epicentro se deu na cidade de Wuhan, província de Hubei, teve seu paciente zero em 17 de novembro de 2019 e, até 27 de março, o país já tinha reportado 81.340 casos confirmados e 3.292 pacientes levados a óbito. Lá, a situação em relação ao home office também não foi diferente. A adaptação foi abrupta, mas, com a ajuda da tecnologia, o país conseguiu estabilizar o número de cidadãos infectados e restabelecer a engrenagem econômica, vital para o desenvolvimento e progresso da sociedade.

País de dimensão continental, com uma população de 1,4 bilhão de pessoas, a China teve uma diminuição de 13,5% de sua produção industrial, o pior resultado dos últimos 30 anos. As vendas no varejo diminuíram 20,5% apenas nos meses de janeiro e fevereiro do ano corrente.

E não é só. Segundo relatório emitido pela alfândega chinesa, as exportações chinesas diminuíram 17,2% e as importações 4% nos dois primeiros meses do ano, comparado com o mesmo período de 2019.

A China estabeleceu restrição de locomoção dos habitantes como medida de combate à covid-19. Em alguns casos, como em Wuhan, o isolamento foi total. Antes da quarentena, cada pessoa na cidade transmitia o vírus para outras quatro, em média. Esse número gradativamente foi caindo e, quando a quarentena acabou, estava em 0,7.

As medidas na China foram duras no sentido do confinamento. Do ponto de vista prático, é isso que tem evitado a proliferação do vírus. Deixar o vírus se espalhar, conforme a teoria da quarentena vertical (lockdown vertical), pode vir a oferecer um risco muito maior para a economia.

Tecnologia

A resposta da China a tudo isso, com o objetivo de combater a disseminação do vírus e amenizar os impactos, foi o substancial incentivo às investidas tecnológicas.

Mediante registro do número do telefone celular perante as autoridades competentes, cada morador recebeu um QR Code (código de barras bidimensional) para identificação individualizada e, se não fosse portador do coronavírus, poderia receber o sinal verde para circular livremente nas ruas, além de poder utilizar transporte público, dentre outras prerrogativas.

O volume de diagnósticos foi impulsionado pelo grupo Alibaba, criador de algoritmo com a utilização de inteligência artificial capaz de diagnosticar casos de covid-19 com 96% de assertividade, favorecendo a criação de políticas públicas mais adequadas no combate à pandemia nos focos de contaminação.

Além disso, drones foram maciçamente utilizados para desinfectar e higienizar áreas públicas. Com eficácia 50 vezes maior que a mão de obra humana e caminhões de limpeza, eles limparam uma área de 6 milhões de metros quadrados – os drones, vale dizer, também foram usados como “taxi aéreo” para transportar medicamentos.

A limpeza do transporte público não foi diferente. Processos de limpeza de ônibus públicos que demandavam em média 40 minutos com a mão de obra humana passaram a serem limpos em cinco minutos por meio do uso de equipamentos emissores de raios ultravioletas (UV), desinfectando 99.9% dos vírus e evitando a corrosão dos ônibus circulares.

No âmbito da medicina, a tecnologia também desempenhou um papel fundamental por
meio de consultas remotas via 5G e inteligência artificial, além de robôs que foram utilizados em determinadas funções em hospitais – para entregar comida aos pacientes em seus quartos, por exemplo – a fim de evitar o contato pessoal.

Outro instrumento tecnológico que ajudou na redução do contato entre as pessoas foram os aplicativos de pagamento pelo celular, já uma realidade na China há alguns anos, e que também evitam o manuseio de cédulas de dinheiro, algo praticamente em extinção no país e vetor de transmissão potencial covid-19.

Investimento a longo prazo

Referidas medidas, dentre inúmeras outras, só foram exitosamente implementadas na China dado o substancial investimento a longo prazo em tecnologia, possibilitado especialmente a partir do momento em que Deng Xiaoping assumiu o poder no final dos anos 1970. Desde então, a China abriu sua economia ao mundo e, dessa forma, se tornou um dos mais importantes players econômicos, com alto crescimento do PIB e poder de investimento.

Um dos setores priorizados foi a educação. A China, até então, não estava disposta a aprender com outros países – alguns líderes, inclusive, achavam que não havia nada a se aprender. Mas, aos poucos, essa mentalidade mudou, e estudantes chineses passaram a ser vistos com cada vez mais frequência em campos universitários mundo afora. No início deste século, a China aumentou em 5% o investimento em educação. Em 2012, passou para 10% a cada 12 meses e, atualmente, já são mais de 500 bilhões de dólares investidos nessa área.

Além disso, houve estímulos a parcerias entre os mundos acadêmico e corporativo e incentivos fiscais a startups. Hoje, 14% dos estudantes formados pela Universidade de Pequim abrem ou trabalham em startups. Para se ter uma noção, em 2005, o índice era de apenas 4%. Universidade esta que, sozinha, tem mais alunos formados em doutorados do que em todo o Brasil.

No final dos anos 1990, a China ainda exportava poucos produtos de valor agregado. Pouco mais de 20 anos depois, os investimentos já deram resultado e 90% dos computadores, 80% dos painéis solares e 75% dos celulares do mundo são hoje produzidos por chineses.

Até pouco tempo atrás, a China tinha somente duas empresas entre as 20 mais valiosas  no ramo de tecnologia. Em um intervalo de cinco anos, passou para nove e, em breve, deve ultrapassar os Estados Unidos, com 11. O país, que era conhecido por imitar, agora é líder em inovação. Dados comprovam tal afirmação, mas, se quiser ver com os próprios olhos, experimente desembarcar no aeroporto de uma cidade como Xangai para se ter noção de toda essa transformação tecnológica, que resultou em um melhor enfrentamento ao coronavírus.

Parceria Brasil China

Maior parceira comercial do Brasil desde 2009 e tendo reconhecido o Brasil como parceiro estratégico global, a China pode, além do comércio bilateral, trocar experiências tecnológicas com o Brasil, para trilharmos o caminho adequado no incansável combate à covid-19.

Para tanto, a Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (COSBAN), através da subcomissão de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), pode ser uma canal de diálogo político de mais alto nível entre o Brasil e China, capaz de trazer experiências do dragão asiático e, quem sabe, abrir oportunidades ao Brasil quanto à implementação da política de Cinturão e Rota Digital (BRI) da China como parte da resolução do problema de combate à covid-19 que assola todo o mundo.

Como se vê, a tradução em chinês da palavra “crise” – união dos ideogramas “risco” e oportunidade” – nunca foi tão atual e fidedigna.

*Edival Lourenço Jr. é superintendente de negócios internacionais do governo do Estado de Goiás com MBA na Universidade de Pequim

*José Ricardo dos Santos Luz Júnior é gerente institucional do Braga Nascimento e Zilio Advogados Associados e CEO da plataforma LIDE China, também com MBA na mesma Universidade

Edival Lourenço Jr. e José Ricardo dos Santos Luz Júnior. FOTOS: DIVULGAÇÃO

Fonte: https://politica.estadao.com.br